segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Marta Maria Francisco


Bom dia pessoal, hoje é dia de contar história...
E quem compartilha sua história conosco é a Marta, 56 anos, nascida na cidade de Espírito Santo do Pinhal.

"Sou a quarta filha de Orlando e Maria de Orlando e Maria de Lourdes Coutinho Francisco, eu e meus irmãos fomos criados por meu pai pois minha mãe faleceu muito jovem. Tive uma infancia normal mas, aos 43 anos de idade já casada e com filhos de 16 e 11 anos, engravidei pela terceira vez e logo depois descobri que estava com glaucoma. Eu trabalhava como merendeira em escola e uma manha, uma colega de trabalho chamou minha atençao a respeito dos meus olhos que estavam muitos vermelhos. Fui olhar no espelho e realmente fiquei assustada, marquei oftalmo para o dia seguinte e depois do exame, fiquei sabendo que estava com glaucoma em ambas as vistas. A médica me explicou que era uma doença genética, no geral são pessoas da raça negra com mais de 40 anos e com histórico de pressao alta. Eu tinha todos os dados, na ocasiao ela me falou da importancia dos colîrios e me deu vários folhetos explicativos sobre a doença. Sinceramente, não dei muita importancia afinal eu achava que estava enxergando bem e que não iria acontecer nada. Eu trabalhava fora, tinha 3 filhos pra cuidar e assim deixei o tempo passar, cada dia mais negligenciando meu tratamento e acreditando estar imune. Na època, eu comprava colírios , e muitas vezes esqueci, deixei de fazer uso corretamente mas, como eu não sentia nada, continuei agindo da mesma forma até que em 2011 eu trabalhava como cozinheira de hospital de minha cidade e notei que começei a cometer muitos erros, éramos uma equipe e todas tinham que manter o mesmo ritmo para que o serviço rendesse e eu começei a ficar pra trás, vivia derrubando bandejas de comida, tinha dificuldade de visualizar a comida dentro da panela, não encontrava as coisas na geladeira e despensa, isso tudo me fazia perder minutos preciosos que acabam em atrasos, eu era cobrada por isso e as colegas também.
Eu também começei a tropeçar e cair na rua, mesmo em lugares que estava acostumada a passar mas, a gota d´água foi o dia que fui sair da agencia bancária e achei que a porta tava aberta mas, a porta de vidro tava fechada e bati com tudo. Pensei que ia morrer de vergonha mas, o desespero por perceber que não estava enxergando foi maior, voltei na oftalmo e ela me disse que eu estava cega.
Ai sim, as coisas ficaram difíceis no trabalho pois, antes eu era taxada de distraída mas depois disso eu passei a ser a cega, as pessoas não falavam abertamente mas deixavam claro que eu atrapalhava no andamento do trabalho, a chefe me tirou da funçáo de cozinheira e eu ficava o tempo tentando fazer algo mas, ficava sempre tão preocupada em não errar e derrubar que acabava errando. Quando o médico pediu meu afastamento foi um alívio, a médica do posto de saúde me encaminhou para uma cidade vizinha chamada Divinolandia, onde tem Hospital Regional onde cuidam de pacientes na área oftalmo, e lá eu comecei a frequentar a Reabilitaação Visual, no início foi complicado pois, demorei pra desapegar da vida de trabalhar na cozinha, me conformar em estar enxergando pouco e ter a sensação que aquele pouco também poderia acabar, ter que viver explicando para as pessoas que assim como eu, nunca ouviram falar em baixa visão, a frase, mas como voce é cega, se anda por todo lado, sempre me acompanha, explico que meu campo visual é <10 e meu CID é 54.0 e ultimamente encontrei uma explicação mais simplificada, eu enxergo apenas no centro dos olhos, na lateral não, então é como se olhase pelo buraco da fechadura, pronto.
Depois do meu período de luto, posso assim dizer, eu me encontrei e me reinventei na R.V, conviver com pessoas que enfrentam as mesmas situações que eu me fez muito bem, eu me achava uma coitadinha, e isso era péssimo pra minha auto estima, um dia, comentando com a pedagoga Renata, que me atendia, eu disse que tinha resolvido meu problema de insônia escrevendo, sim, ia pra cozinha pegava um caderno e escrevia tudo que estava na minha cabeça  e isso era muito bom, como estava afastada, podia tirar uns cochilos de dia, ela me pediu pra levar algo pra ela ler, levei e ela gostou e pediu pra ler para o pessoal na terapia de grupo e daí toda semana eu era convocada a levar um texto, isso me motivava, e além de que fui desenvolvendo a habilidade de escrever, no grupo também temos coral, artesanato, fisioterapia, braille e treinamento de bengala. Para mim, é um lugar abençoado, é como se fosse minha casa, e pela dedicação dos profissionais e pelo meu interesse e continuar levando minha vida, tudo deu certo.
Em 2012 fui aposentada por invalidez aos 52 anos. E foi daí que descobri meu interesse por fotografia, uma das terapeutas ocupacional, a Iaga Vessela que também é fotógrafa, notou que eu gostava muito de fotografar o pessoal em todos os eventos que tinha por lá, e para os que não tem acesso a internet, eu revelava a foto e levava pra eles, e quando ela ficou sabendo que na Pinacoteca do Estado ia ter um curso de fotografia para pessoas com D.V, foi a chance que eu esperava, participei e aprendi muito em conviver com pessoas que também amam fotografia assim como eu, desse curso teve uma exposição. Transver, e atualmente eu continuo nas aulas do mesmo professor mas, no Senac de SP, é o professor Jõao Kulcsar que usa a técnica de descrição para D.V.
Na minha cidade também frequento outro curso de fotografia, tenho minhas dificuldades mas, não deixo que elas me impeçam de seguir minha vida, meu auxilio é apenas óculos, meu caso não tem cirurgia, apenas colírios que hoje uso da maneira correta, já não me importo mais se as pessoas acreditam se enxergo ou não, estou em paz com Deus, com a vida e com tudo que ela me deu e quero mais é continuar me reinventado todos os dias, com a fotografia sendo parte da minha vida!". Essa é a Marta Maria.


A Marta gentilmente compartilhou algumas de suas fotos comigo e amanhã irei posta-las em uma exposição para que vocês possam apreciar esse belo trabalho realizado com muito amor. Marta gentilmente me mandou junto as fotos, descrições das imagens #PraCegoVer.
Aguardem, que amanha terá essa belíssima exposição de fotos, aqui no blog, na fanpage Luana, A Rara, Intagram e Twitter. Fiquem de olho.  Essa você não pode perder!




Quer ser o protagonista da próxima história?
Me escreve: Luanaperrusiarara@gmail.com 

#luanaarara #raroeaquelequenaoecomum